Mudanças Climáticas: Risco e Proteção?
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- 18 de jul. de 2025
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Atualizado: 12 de ago. de 2025

O território brasileiro está quase todo entre o Trópico de Capricórnio e a Linha do Equador — uma região quente e úmida que favorece nuvens de tempestade muito altas. Resultado: o INPE estima cerca de 78 milhões de raios por ano, o maior número do planeta. Estudos apontam que, se a temperatura média global subir 1 °C, a quantidade de descargas pode crescer até 12 %. Em outras palavras, aquecimento global = mais raios.
Panorama das Descargas Atmosféricas no Brasil
O retrato brasileiro das descargas atmosféricas é contundente: o país lidera o ranking mundial, com uma média anual de ≈ 78 milhões de raios— 2,5 descargas por segundo. A Rede Integrada Nacional de Detecção de Descargas Atmosféricas (RINDAT), já mapeia mais de 60 sensores distribuídos do Oiapoque ao Chuí, permitindo estimar densidades superiores a 15 raios /km2 ano em trechos da Amazônia Ocidental e do litoral Sudeste.
Entre 2013 e 2023, o ELAT registrou 835 mortes relacionadas a raios, evidenciando que a combinação de alta incidência com população numerosa amplia a exposição a casos fatais. Os dados mais recentes apontam tendência de alta: projeções climatológicas sugerem que o total anual de descargas pode saltar para até 200 milhões nas próximas décadas se o aquecimento global não for contido — um alerta que sublinha a urgência de adotar, difundir e fiscalizar as exigências das normas oficiais e o uso coordenado de DPS em edificações e infraestruturas críticas.

Mudanças climáticas e a “fábrica” de raios
A convecção é o motor das nuvens de tempestade. Ar mais quente transporta mais vapor de água; ao elevar‑se, resfria‑se e condensa em gotículas e cristais de gelo. O choque entre gelo seco (graupel) e cristais finos gera separação de cargas. Simulações do ELAT para o Centro‑Oeste indicam que um cenário de +2 °C pode elevar em 20 % a densidade de raios no auge do verão.
A energia liberada é impressionante: ao quebrar a rigidez dielétrica do ar (≈ 3 MV/m), o raio abre um canal de plasma com temperaturas de até 30 000 °C em microssegundos. Essa explosão térmica explica o estampido sônico do trovão e a capacidade do raio de vaporizar materiais — fenômeno que, combinado a estiagens prolongadas, desencadeia incêndios florestais.

Fonte: ELAT (http://www.inpe.br/webelat/homepage/menu/relamp/relampagos/caracteristicas.da.corrente.eletrica.php)
Urbanização, ilhas de calor e raios ascendentes
Ilhas de calor e convecção local
Asfalto, telhados escuros e canyons de concreto retêm radiação solar, elevando a temperatura urbana em até 5 °C frente a áreas periféricas. Essa anomalia térmica cria correntes ascendentes adicionais que “engordam” nuvens carregadas, fenômeno observado pela RINDAT em São Paulo, Manaus e Goiânia, com incremento médio de raios de ~5 % ao ano entre 2010 e 2020.
Proteção segundo a ABNT NBR 5419
A edição 2015 da NBR 5419 transformou o Brasil em um dos poucos países com norma de proteção contra descargas atmosféricas alinhada, artigo por artigo, à série IEC 62305. Abaixo, cada eixo normativo é detalhado em linguagem prática, mas sempre amarrado aos trechos originais da norma.
DPS — o “air‑bag” eletrônico da instalação
A NBR 5419‑4 exige que qualquer linha que penetre na Zona de Proteção contra Raios 1A (interior da edificação) passe por um DPS. Três aspectos centrais merecem atenção:
Classe de ensaio e local de instalação
Classe I (10/350 µs) – entrada da rede de energia ou sinal.
Classe II (8/20 µs) – quadros de distribuição onde a energia do surto já é atenuada.
Classe III (onda combinada 1,2/50 – 8/20 µs) – próximo a equipamentos0 sensíveis e de alto valor (tomadas, PCs, racks de TI, PLCs).
Capacidade de condução Um DPS de entrada para NP I (Nível de Proteção I) deve conduzir pelo menos 10 kA por condutor na forma de onda 10/350 µs; para NP III e IV a exigência cai para 5 kA, mas boa prática mantém uma margem de segurança.
Coordenação e layout
Comprimento de cabos – a soma entre a alimentação do DPS e conexão dele ao BEP/BEL do quadro deve ser ≤ 0,5 m na classe I para reduzir a sobretensão no equipamento.
Distância entre estágios – Recomenda‑se respeitar os 10 m de cabo entre DPS de diferentes estágios (classe I ➜ II ou II ➜ III),
Equipotencialização cruzada – linhas de dados ou antenas que entram no mesmo volume protegido devem ter seus próprios DPS e ser aterradas no mesmo ponto que o sistema de energia.
Um DPS corretamente especificado não se limita a “derrubar picos de tensão”: ele também absorve energia térmica (let‑through) e controla o di/dt (taxa de variação de corrente), fatores críticos para chips de controle e interfaces Ethernet a 1000 Base‑T. No Brasil, ainda é comum ver DPS classe II sozinho no quadro geral; isso deixa a instalação exposta a pulsos de forma 10/350 µs que podem perfurar o isolamento do cabeamento interno. O projeto conforme NBR 5419 exige, portanto, a cascata classe I ➜ II ➜ III e inspeções regulares, pois o desgaste térmico de varistores altera o nível de proteção (Up) ao longo dos anos.




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